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22/05/2010 | Texto da escritora Ana Maria Machado publicado na Coluna de Merval Pereira de 22/05/2010


Texto da escritora Ana Maria Machado publicado na Coluna de Merval Pereira no dia 22 de maio de 2010 sobre polêmica supostamente gramatical refente ao projeto Ficha Limpa

"Os que forem juristas podem ter suas interpretações. E até mesmo chamá-las de gramaticais. Nem por isso o estarão fazendo porque virão a ser juristas, mas porque o são.

Os que forem políticos podem ver um significado diferente na lei segundo a necessidade de aplicá-la para os que forem aliados ou os que forem adversários. Mas não o fazem porque virão a ser políticos. Pelo contrário, justamente porque o são.

Se numa reunião do Congresso, alguém tentar organizar a distribuição de assentos e pedir que os que forem deputados se sentem ao fundo do recinto e os que forem senadores se dirijam às primeiras filas, nenhum parlamentar vai achar que a recomendação se refere a uma eleição futura e que precisam esperar primeiro ser eleitos para só depois saber em que categoria de os que forem se enquadram.

Da mesma forma, instados a buscar seus assentos nesse caso hipotético, os que forem juízes sabem perfeitamente que não precisam aguardar nomeações futuras. Já o são.

Os que forem leitores - de Montesquieu, por exemplo - sabem buscar o espírito das leis por trás da letra das mesmas.

A confusão não é apenas gramatical e de tempo verbal. É filosófica, entre ser e vir a ser.

Na famosa frase que aprendemos na escola (creio que de Osório), a conclamação era: "Quem for brasileiro siga-me". Uma maneira de dizer, no singular: "Os que forem brasileiros sigam-me". A urgência era evidente. Não se fazia necessário esperar processos de naturalização ou novos nascimentos.

Os adiamentos podem até funcionar por mais algum tempo. Mas a extraordinária mobilização popular pressionando pelo fim dos fichas-sujas mostra que a ficha do eleitor brasileiro está caindo. E em matéria de manobras para ganhar tempo e perpetuar a falta de ética na política, as que forem mais sutis serão sempre as mais repelentes. Não dá para mentir eternamente e renegar sempre o que se é.

A tal história de ser impossível enganar todos o tempo todo".



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