Artigo
Tintas da descrença
Antonio Marcus Machado
Economista e professor universitário
Acompanhei as matérias jornalísticas sobre a inaceitável atitude do governador Paulo Hartung em relação à candidatura de seu sucessor. Li várias coisas. Por exemplo, não sei o que levaria uma pessoa a escrever um artigo "lendo" a mente de Hartung e escrevendo palavras que buscam justificar sua recente decisão, enaltecendo-o. Parecia um "ghost writer". Mas o livre escrever é um atributo da democracia. Outros analistas também emitiram suas opiniões em jornais locais e o que se pode entender é que todos ainda temem emitir opiniões francas e diretas sobre o assunto. Salvo, na minha percepção, uma competente jornalista capixaba. Mesmo assim, muito comedida. Moreno, articulista de O Globo foi bem mais contundente no sábado, dia do trabalho. Fica a impressão que é preciso um Élio Gaspari, um Moreno, para expor o quadro conjuntural de forma real utilizando-se de mídia tradicional como um jornal. O que foi feito com Ferraço é algo indefensável. Inominável, para não ser prolixo. E não só com ele, Ricardo, mas com um amplo grupo de lideres e aliados publicamente declarados, representados por políticos como Neucimar e Vidigal. Este último o mais claro e objetivo em seu descontentamento com o que aconteceu. O primeiro, liso como sabão, escorregou na campanha, mas quer ficar em pé, quem sabe em outro projeto político.
O que me causou curiosidade foi a postura de Luiz Paulo que poupa o Governador e canaliza sua percepção crítica para o presidente Lula e Dilma. Livra Hartung dessa mácula. Terá Luiz Paulo receio de Paulo? De um revide? Ou pensa assim procedendo angariar o apoio de Hartung e fortalecer sua candidatura? Ou, o que é igual, obter sua neutralidade? Não sei. Luiz Paulo parece estar pisando em cascas de ovos. Em uma cama de faquir. Deu a entender que ainda considera Paulo como um grande estadista, um grande articulista político, um exemplo a ser seguido. Essa tese hoje é muito controversa e o deputado federal tem que estar atento a isso. Para liderar um grupo de insatisfeitos - candidatos e eleitores - talvez seja preciso um pouco mais do que isso. Também li pessoas afirmarem que a atitude de Paulo foi para proteger o futuro do Espírito Santo da "bandalheira". Não entendi. Luiz Paulo, Brice e Casagrande seriam a "bandalheira"? Outros insinuaram que era para não deixar "forças malignas" retornarem. De novo há que se perguntar se alguns desses candidatos representam essas forças malignas. E Paulo Hartung dizer que fez isso tudo pelo bem do Espírito Santo soa falso. É esse o exemplo a ser seguido pelos jovens políticos capixabas?
Se tiver grandeza suficiente, Paulo deverá assumir seu erro, pedir perdão e se explicar claramente para a população capixaba. Não é Ferraço quem tem que se explicar apenas. Paulo, principalmente. Casagrande também, pois foi aético, foi lobo em pele de cordeiro. Pelo que parece valeu-se de influências para retirar Ricardo da corrida eleitoral. Paulo só executou essa atitude porque Casagrande pactuou. Foi conivente. Chegar sorridente e permitir-se uma foto em que Paulo e principalmente Ferraço estão abatidos - literalmente - demonstrou soberba. Renato não precisava se valer desse movimento comprometedor para ser um candidato competitivo. Manchou sua reputação. Só quem, como eu, admira desde o movimento estudantil a pessoa e a destreza política de Hartung sabe o quanto é dolorido escrever um texto como este. Mas agora, o registro implacável da História o marcou com as tintas indeléveis da descrença.
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