Artigo

Sobremesa

Antonio Marcus Machado
Economista e professor universitário



Os sul-americanos gostam do populismo. Não estou falando de democracias ou ditaduras. Estou me referindo ao assistencialismo mesmo. A favores e benesses sem qualquer contrapartida produtiva, na maioria das vezes. A bondade, a dádiva, o perdão, a compreensão exagerada, a empatia imensurável. Enfim, o almoço grátis, lembrando Milton Friedman. Foi assim com Perón, Evita e Getúlio, tempos atrás e ainda é assim com Evo Morales e Hugo Chaves. Não esquecendo, é claro, de nosso próprio presidente, Lula. É incrível a sua competência e indiscutível capacidade de ser populista. Comparado ao necessário, fez muito pouco pelo Norte e Nordeste, mas anda de botas pela lama das enchentes e é venerado como se caminhasse sobre a s águas. Parece ser o messias da terra prometida. Para 85% da população, hoje, não parece: é.

Com isso, mantida a tendência do efeito tesoura - Dilma sobe, Serra desce - fará seu sucessor à Presidência da República. Creio ser muito difícil para o candidato tucano reverter a tendência apenas com as participações nos programas de televisão. Quando ele chega a uma padaria do interior ou da periferia para pedir um pão na chapa quente e um café com leite, parece um elefante em loja de porcelana. Esbarra em um monte de preconceitos que não sabe evitar de forma natural. Kennedy ganhou a eleição presidencial contra um candidato mais forte que ele - Nixon - pela sua aparência e eloqüência. Nixon carregava uma gripe de mais de uma semana. Kennedy reluzia em beleza, agilidade e capacidade midiática. Já Nixon, em um terno acima de seu número, afundava em um semblante derrotado. E ele era nada mais nada menos que apadrinhado de Ike Eisenhower, o grande vencedor da Segunda Grande Guerra. A imagem de Kennedy, um católico, venceu Nixon e seu fortíssimo cabo eleitoral.

Serra não é Kennedy. Nunca será em termos de imagem e carisma. Muito menos de capacidade midiática. Será necessário então, mostrar que o atual governo fez muito pouco, além do assistencialismo, do populismo. Que ele poderá fazer melhor. Mas, mostrar para quem? Para qual público? Para os que se manifestam a favor da Dilma?

Como eu disse no início, os brasileiros gostam do populismo, do almoço grátis. A diferença entre o público pobre e o público rico é pequena. Enquanto os pobres se contentam com o almoço grátis, os ricos exigem sobremesa.






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