Antonio Marcus Machado
Economista e professor universitário
A política no Espírito Santo pode ser percebida como se fosse um jogo de vídeo-game. Alguns atores são bonecos, marionetes que se movem de uma situação para outra ao toque de um mouse, de uma tecla. Um jogo sem dinâmica própria, realizado e conduzido por uma pessoa, o governador Paulo Hartung. Ele aperta as teclas play, pause e replay, quando quer, no momento em que quer. E convida seus amigos e adversários para jogar, observando habilidades, ambições, oportunidades e ameaças. Só aperta o play quando vê que tem muita chance de ganhar. Quando há dúvida, aperta o pause. Troca jogadores reinicia o jogo e assim se diverte. Mas, recentemente, tem gostado da tecla replay. Ou seja, gosta de repetir jogadas, decisões, atitudes.
Fez com Ricardo Ferraço o mesmo que fez com Luiz Paulo alguns anos atrás. Coibiu sua ascensão. Puxou-lhe o tapete sem a menor cerimônia. O hoje deputado federal engoliu seco, acusou o golpe inesperado e tratou de reconstruir seus caminhos políticos. Mas, no fundo, creio ter ficado um pingo de mágoa nele e nos que o admiram. Até hoje acredito ser esse um assunto mal resolvido entre ambos. Uma lacuna de confiabilidade. Com Ricardo acho que Paulo fez pior. Foi mais sádico. Fez florescer o espírito político inebriante da candidatura ao governo do Estado. Alardeou aos quatro cantos sua preferência e usou o argumento da continuidade em seus discursos. Ungiu Ricardo com o óleo santo do Império Palaciano. Mas, fica claro que Paulo só joga "à vera". Até em condomínio!
Eu não tenho a menor dúvida em afirmar que Ricardo é o melhor Vice-Governador da história do Espírito Santo. Sua fidelidade, entrega ao trabalho cotidiano, competência e
ilibada reputação o credenciam para essa percepção. Assumiu responsabilidades gerenciais, protagonizou alianças políticas, defendeu o governo quando criticado e recebeu como prêmio ser preterido. Talvez esse seja um termo pesado, mas não vejo outro para qualificar a atitude do governador atual. A tecla replay foi acionada. Ricardo, ejetado. Dessa vez parece que Paulo exagerou. Aos poucos descontrói a confiabilidade em torno de si. Imprevisibilidade é uma coisa, às vezes até aceitável. Inconfiabilidade é outra, bem grave e inaceitável.
Incautos e ineptos como Neucimar, Vidigal, Coser e outros devem estar aprendendo a diferença entre esses dois vocábulos. Antecipadamente, de forma excludente, aceitaram o convite e foram jogar com Paulo. Declarações públicas, fotos, eventos, ironias e outras "jogadas de efeito" rolavam a bola do jogo. Vacinado, Luiz Paulo manteve-se a distancia, mas na mesma trilha que leva ao governo do estado. Que argumentos essas pessoas terão agora para seguir a orientação de Hartung e trabalhar para Casagrande? Os mesmos usados para Ricardo? Reiniciado o jogo vão continuar a carreira de marionetes? Progressistas e liberais vão trabalhar para a campanha da Dilma a "pedido" de Hartung?
Para se perder um bom argumento basta exagerar em seu uso. E Paulo assim fez. Duas vezes: no "fico" e na revisão do projeto de Ricardo. Este um dos melhores candidatos ao Governo do Estado. O que melhor personifica a tese de continuidade. Paulo parece ter manchado seu currículo político de forma indelével. Na coletiva o vi triste, amargurado, amordaçado. Assim como Ferraço, resignado. E que Casagrande fique atento à tecla replay. Pois o jogo só acaba quando termina.
Não sei se tem qualquer importância, mas esse texto tem a pretensão de oferecer solidariedade a Ricardo Ferraço.