Artigo

Desaposentados

Antonio Marcus Machado
Economista e professor universitário



O presidente Lula tem afirmado ser contra um aumento maior para os aposentados. Acha que 6% e até possível com muita boa vontade, mas 7% é um reajuste comprometedor para o equilíbrio dos gastos públicos. É, no mínimo, desconcertante essa postura da presidência da república. Não há a mesma preocupação ou o mesmo argumento para reajustes de outras categorias, para desnecessárias viagens internacionais e para propagandas oficiais dispendiosas. Para "bancar" um projeto polêmico como Belo Monte o governo pode desconsiderar seu equilíbrio fiscal, mas para reconhecer a defasagem e o mérito daqueles que tanto já contribuíram para as receitas públicas logo surgem pronunciamentos de contenção de gastos.

A raiz da palavra aposentado permite duas interpretações. Uma é entender que alguém irá ficar recluso, restringindo-se a seus aposentos. Como se a vida fosse um mero observatório da passagem do tempo. Um tempo de leituras, de trocar carinhos com netos, netas, bisnetos, bisnetas, familiares enfim. Um tempo precioso de lembrar o caminho da própria vida e percorre-lo ora com as lágrimas da saudade, ora com o riso da juventude a seu redor. Alguns podem assim pensar e proceder. É um direito que a sociedade os confere. Uma decisão pessoal.

Outra possibilidade é entender o vocábulo como uma pausa. "Apousentar", procurar pouso. Um lugar para descansar, dar um tempo, recarregar as baterias e continuar o caminho à frente. Pessoas que agora querem dividir sua experiência com outras, exercer trabalhos voluntários, remunerados ou não. Viajar, passear, reaprender, estudar e continuar contribuindo para o crescimento do país de uma forma nova, menos desgastante. A internet está aí para permitir isso. É um desperdício não oferecer a essas pessoas a oportunidade de contribuir com a experiência que adquiriram ao longo de tanto tempo. Nas duas interpretações é possível entender que são consumidores, que movimentam a economia. Pois ambos continuam sendo consumidores de produtos, serviços e suas respectivas cargas tributárias.
 
Os aposentados não são uma classe social comum. São pessoas com 60 anos de idade e 35 anos de contribuição. No caso da proporcional, 55 anos de idade e 30 de contribuição, mais o "pedágio". Economia formal, carteira assinada, tudo devidamente comprovado. Não precisam de "bolsa" do governo. Apenas do reconhecimento legítimo, ético e cívico de sua contribuição para a consolidação deste nosso país. Inúmeros países os tratam com a dignidade que merecem. Outros não. Naqueles são verdadeiramente aposentados. Nesses últimos são apenas desaposentados, sem pouso nem pausa. "Quo Vadis", Brasil?




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