Jean-Paul Sartre
Jean-Paul Charles Aymard Sartre (Paris, 21 de Junho de 1905 - Paris, 15 de Abril de 1980) foi um filósofo francês, escritor e crítico, conhecido representante do existencialismo.
Les Lettres Françaises 09.09.1944
Nunca fomos mais livres do que durante a ocupação alemã. Tínhamos perdido todos os nossos direitos e, em primeiro lugar, o de falar; éramos ultrajados a cada dia e tínhamos de nos calar; éramos deportados em massa como trabalhadores, como judeus, como prisioneiros políticos; em todo lugar, nos muros, nos jornais, nas telas de cinema, reencontrávamos o semblante imundo que nossos opressores queriam nos dar de nós mesmos: por causa de tudo isso éramos livres. Porque o veneno nazista se infiltrava até no nosso pensamento, cada pensamento justo era uma conquista; porque uma polícia todo-poderosa tentava nos constranger ao silêncio, cada palavra se tornava preciosa como uma declaração de princípios; porque estávamos encurralados, cada um de nossos gestos tinha o peso de um engajamento. As circunstâncias muitas vezes atrozes de nosso combate nos tornaram capazes de viver enfim, sem disfarces e sem véus essa situação dilacerada, insuportável que se chama a condição humana. O exílio, o cativeiro e, acima de tudo, a morte que mascaramos habilmente nas épocas felizes, eram os motivos perpétuos de nossas preocupações, percebíamos que não são acidentes evitáveis, nem mesmo ameaças constantes, mas exteriores: era preciso reconhecer nelas nosso quinhão, nosso destino, a fonte profunda de nossa realidade de homem; a cada segundo vivíamos em sua plenitude o sentido desta pequena frase banal: "Todos os homens são mortais." E a escolha que cada um fazia de si mesmo era autêntica porque era feita na presença da morte, porque poderia sempre se expressar como "Melhor morrer do que...". E não falo aqui daquela elite que foram os verdadeiros Resistentes, mas de todos os franceses que, a cada momento do dia e da noite, durante quatro anos, disseram não. A própria crueldade do inimigo nos empurrava até os extremos de nossa condição, constrangendo-nos a fazer as perguntas que evitamos na paz: todos aqueles dentre nós - e que francês não esteve uma ou outra vez nessa situação? - que conheciam alguns detalhes interessantes da Resistência se perguntavam com angústia: "Se me torturarem, vou agüentar?" Assim, a própria questão da liberdade se impunha e nós estávamos no limiar do conhecimento mais profundo que o homem pode ter de si mesmo. Porque o segredo de um homem não é o seu complexo de Édipo ou de inferioridade, é o limite mesmo da sua liberdade, é seu poder de resistência aos suplícios e à morte. Aos que tiveram uma atividade clandestina, as circunstâncias de sua luta traziam uma novidade: não combatiam à luz do dia, como soldados; encurralados na solidão, presos na solidão, foi no abandono, no desamparo mais completo que eles resistiram às torturas: sozinhos e nus diante dos carrascos bem barbeados, bem nutridos, bem vestidos que escarneciam de sua carne miserável e a quem uma consciência satisfeita e um poder social desmesurado davam todas as aparências de terem razão. No entanto, no mais profundo dessa solidão, eram os outros, todos os outros, todos os camaradas da resistência que eles defendiam; uma só palavra seria suficiente para provocar dez, cem detenções. Essa responsabilidade total, na solidão total, não é o próprio desvelamento da nossa liberdade? Aquele desamparo, aquela solidão, aquele risco enorme foram os mesmos para todos, para os chefes e para os homens; tanto para os que levavam mensagens cujos conteúdos ignoravam quanto para os que tomavam decisões sobre toda a resistência, uma única sanção: a prisão, a deportação, a morte. Não há exército no mundo onde se encontre semelhante igualdade de riscos para o soldado e para o generalíssimo. E é por isso que a Resistência foi uma democracia verdadeira: o mesmo perigo para o soldado e para o chefe, a mesma responsabilidade, a mesma liberdade absoluta na disciplina. Assim, na sombra e no sangue, a mais forte das Repúblicas foi constituída. Cada um de seus cidadãos sabia que se devia a todos e que só podia contar consigo mesmo; cada um compreendia, no mais completo desamparo, seu papel histórico. Cada um deles, contra os opressores, decidia, empreendia ser ele mesmo, irremediavelmente, e escolhendo a si mesmo em sua liberdade, escolhia a liberdade de todos. Essa república sem instituições, sem exército e sem polícia, era preciso que cada francês a conquistasse e a afirmasse a cada instante contra o nazismo. Eis-nos agora, às vésperas de uma outra República: não podemos esperar que ela conserve à luz do dia as austeras virtudes da República do Silêncio e da Noite.